Por Redação Fronteira PY

Resumo: Levantamentos recentes mostram que o Paraguai se consolidou como destino estratégico para empresas brasileiras que buscam reduzir custos de produção. Ao menos 179 companhias de capital brasileiro já operam no país sob o regime de maquila, sendo 47 instaladas somente nos últimos cinco anos. O movimento é impulsionado por incentivos fiscais agressivos, energia mais barata, jornada de trabalho mais longa e segurança jurídica, mas também expõe gargalos de infraestrutura que o setor privado tem sido chamado a resolver.

O Paraguai deixou de ser, para o empresariado brasileiro, apenas um destino de turismo de compras. Nos últimos anos, o país vizinho se transformou em um polo produtivo que atrai indústrias inteiras dispostas a atravessar a fronteira para fabricar com menos impostos, menos encargos e mais velocidade regulatória. A mudança é visível nas cidades paraguaias próximas ao Paraná, onde antigos terrenos ociosos deram lugar a canteiros de obras, parques industriais e condomínios de alto padrão.

Reportagem da CNN Brasil mostrou que ao menos 179 empresas de capital brasileiro atuam atualmente no Paraguai sob o regime de maquiladoras — firmas voltadas exclusivamente à exportação de bens e serviços. Desse total, 47 se instalaram no país nos últimos cinco anos, um sinal de que o movimento não é pontual, mas uma tendência que se acelera ano após ano.

O motor por trás dessa migração empresarial tem nome: Lei de Maquila. O instrumento permite a importação de matérias-primas, equipamentos e insumos com suspensão tributária, desde que a produção final seja destinada à exportação. Some-se a isso um imposto único de 1% sobre as exportações e isenções fiscais e aduaneiras amplas, e o resultado é uma equação tributária dificilmente replicável do lado brasileiro da fronteira.

Entre as marcas que já cruzaram essa fronteira está a Karsten, indústria catarinense de artigos de cama, mesa e banho. Com três plantas no Vale do Itajaí, a empresa abriu em maio deste ano uma unidade em Minga Guazú, próxima a Ciudad del Este. A fábrica paraguaia foi pensada como etapa final da produção de toalhas: o tecido chega em rolos da matriz brasileira ou de outros fornecedores, é cortado, costurado e etiquetado localmente, para depois retornar ao Brasil já embalado para distribuição.

A Lupo, tradicional fabricante de moda íntima e meias, também figura entre as empresas que recentemente ampliaram operações no país vizinho. Segundo um advogado que atende empresas brasileiras instaladas no Paraguai, ouvido pela CNN Brasil, a rentabilidade das operações “em determinados casos assusta”, em razão dos ganhos tributários somados à redução de encargos trabalhistas e à maior carga horária permitida.

É justamente na jornada de trabalho que está uma das diferenças mais discutidas entre os dois países. No Paraguai, a semana de trabalho pode chegar a 48 horas, quatro a mais que o limite praticado atualmente no Brasil. Caso o Congresso brasileiro aprove o fim da escala 6×1, essa diferença poderá saltar para 8 horas semanais, ampliando ainda mais o descompasso competitivo entre os dois lados da fronteira.

O apelo não se limita à indústria tradicional. Segundo o empresário Jonathan Roger Linsmeyer, especialista em projetos empresariais no Paraguai, a Lei de Maquila também passou a contemplar empresas prestadoras de serviços, abrindo espaço para escritórios de advocacia, consultorias e companhias de tecnologia exportarem serviços ao Brasil com tributação reduzida dentro do mesmo regime.

O crescimento da presença brasileira no Paraguai também aparece nos números da migração. De acordo com o Departamento de Migrações paraguaio, em 2024 cerca de 17 mil brasileiros obtiveram autorização para residir no país. Em 2025, esse número saltou para mais de 23 mil, um crescimento de 37% em apenas um ano. Em Ciudad del Este, a poucos quilômetros da Ponte da Amizade, postos itinerantes de migração já registram filas que começam a se formar de madrugada e que, em dias de maior demanda, reúnem quase 500 pessoas — a maioria brasileiros em busca de documentação de residência.

O avanço paraguaio não se resume à indústria de exportação. Linsmeyer afirma que o país mantém crescimento econômico anual entre 5% e 6%, sustentado por estabilidade monetária e segurança jurídica de longo prazo — mais de duas décadas, segundo ele. “O que uma empresa planeja realizar em dez anos no Brasil, muitas vezes consegue fazer em três anos no Paraguai”, resumiu o empresário em entrevista à Rádio Cultura, citando os ganhos de velocidade regulatória como um dos principais diferenciais do país vizinho.

Nem tudo, porém, é vantagem sem contrapartida. O próprio setor produtivo reconhece que a energia elétrica no Paraguai pode custar até 60% menos que no Brasil, mas enfrenta problemas relevantes de distribuição. Para contornar o risco de instabilidade no fornecimento, empresas que se instalam no país têm precisado investir em geradores próprios, buscar parques industriais já equipados com subestações ou até bancar a construção de uma subestação dedicada perto da planta produtiva.

O governo paraguaio reconhece publicamente esse gargalo, mas sinaliza que a estratégia adotada é manter a carga tributária baixa e transferir parte da responsabilidade pela infraestrutura de energia ao setor privado — uma escolha de política econômica que ainda gera debate entre analistas sobre sua sustentabilidade no médio prazo, à medida que o número de indústrias instaladas continua crescendo.

O mercado de trabalho paraguaio também apresenta contradições que merecem contexto. Apesar de uma taxa de desemprego baixa, de 3,5% no último levantamento, cerca de 60% dos trabalhadores do país ainda estão na informalidade. A chegada de indústrias estrangeiras — brasileiras entre elas — é vista por parte do empresariado como uma via possível para formalizar parte dessa força de trabalho, ainda que o processo dependa de políticas públicas de qualificação profissional e fiscalização trabalhista mais consistentes.

O impacto do movimento também aparece do lado brasileiro da fronteira, especificamente em Foz do Iguaçu. Segundo Linsmeyer, mais da metade dos investidores brasileiros que mantêm operações no Paraguai continua residindo na cidade paranaense, o que ajuda a explicar o crescimento acelerado de condomínios fechados e empreendimentos imobiliários na região nos últimos anos. Assim, mesmo quando a produção migra para o lado paraguaio, parte relevante da renda e do consumo gerados permanece circulando no território brasileiro.

Outro fator que deve influenciar esse fluxo de investimentos nos próximos anos é a consolidação da Rota Bioceânica, corredor que pretende conectar o Atlântico ao Pacífico atravessando o território paraguaio. De acordo com Linsmeyer, a expansão dessa rota deve exigir um sistema de controle e fiscalização de fronteira cada vez mais robusto, o que tende a atrair ainda mais investimentos em segurança e logística para regiões como Ciudad del Este, Presidente Franco e Los Cedrales — áreas hoje beneficiadas também pela expansão parcial da Ponte da Integração.

Setores além da indústria exportadora também entraram no radar de investimentos internacionais. O Paraguai vem ampliando investimentos em saúde, com projetos de hospitais de grande porte anunciados para Assunção, Ciudad del Este e Pedro Juan Caballero — um dos sinais de que a modernização da infraestrutura pública, ainda que gradual, começa a acompanhar o ritmo do crescimento industrial e imobiliário observado na fronteira.

Visão da Fronteira Hub

Para quem vive e empreende na região trinacional, o movimento descrito acima não é uma tendência distante: é uma transformação que já reconfigura o cotidiano de Ciudad del Este, Presidente Franco e Foz do Iguaçu. Para moradores paraguaios, a chegada de indústrias brasileiras representa possibilidade real de formalização do emprego e valorização de bairros próximos aos novos parques industriais — mas também exige atenção redobrada quanto à pressão sobre energia, moradia e serviços públicos locais.

Para empresários e investidores, o cenário confirma o que a Fronteira Hub já vem sinalizando: o regime de maquila e a carga tributária reduzida do Paraguai seguem sendo, na prática, um dos ambientes de negócios mais competitivos da América do Sul — desde que o investidor esteja preparado para lidar com gargalos de infraestrutura, sobretudo energia, e para investir em planejamento jurídico sólido antes de migrar operações.

Já para os brasileiros que hoje avaliam morar, trabalhar ou abrir negócio no Paraguai, os números de migração mostram um caminho cada vez mais trilhado, mas também mais concorrido: filas maiores nos postos de documentação, mais burocracia a ser enfrentada e mais concorrência por terrenos, mão de obra qualificada e imóveis bem localizados perto dos polos industriais em expansão.

A Fronteira Hub continuará acompanhando de perto os desdobramentos desse movimento — da expansão da Lei de Maquila aos gargalos de infraestrutura energética, passando pelo avanço da Rota Bioceânica e pela liberação plena da Ponte da Integração. Siga o portal para não perder as próximas atualizações sobre economia, investimentos e vida na fronteira Brasil-Paraguai.

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